Volume 2 — 2024
Danielli Mendes
Resumo
A mesma boca que fuma é a boca que ri, reza e roga praga. O manifesto surge do desejo de organizar os efeitos sofridos no corpo da artista Danielli Mendes em sua travessia para África, Senegal, seu encontro com o baobá e com a porta do não retorno na ilha de Goré. O filme é sentido em três camadas que se desenvolvem simultaneamente. O texto, a voz da filha que cruzou o atlântico, que elabora uma estratégia de reposicionamento da força vital e da retirada estratégica do corpo negra da história ocidentalizada. As imagens, que mostram a conexão com a Mãe e a Tia, ancestralidade viva que é convocada para continuar a vibração da coluna e se reconciliar com a entidade primordial: o tambor, responsável por manter o cosmo, a vitalidade e a conexão ancestral dos povos que foram sequestrados e escravizados. As mãos que acariciam o tambor, são as mesmas que se conectam para permanecer em contato com a nossa verdadeira vibração no mundo. O espectador que vai ter que se movimentar e posicionar o tempo todo, já que no manifesto há um eu, um nós e um você. Não é simplesmente ver e ouvir, o manifesto exige movimentação, reposicionamento.
Sobre o contexto em que o vídeo foi criado, em 2022 ganhei a bolsa Pinabaushfellowship para estudar na École des Sables, centro internacional de dança localizado no Senegal, Toubab Dialao. A École oferece uma graduação em dança intitulada Africa Diaspora Training Program dividido em 3 módulos, com duração de 10 semanas imersivas para cada fase. O curso promove o encontro necessário e urgente entre os artistas do continente africano e os artistas da diáspora. No ano de 2023 participei do segundo módulo: Performance, visibilidade e negritude. O Manifesto é a minha primeira elaboração após essa travessia, a escrita, em paralelo com as imagens, busca maneiras de restaurar e reposicionar meu corpo, minha dança, para ficcionar outras narrativas para o corpo preta no mundo.
Palavras-chave
ancestralidade; coluna; reposicionamento; memória; estratégia
Biografia
Danielli Mendes é artista e professora de práticas corporais da medicina tradicional chinesa. É formada em Dança pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho de Danielli tem como objetivo investigar técnicas que ajudem a criar estratégias de fortalecimento e reposicionamento de seu centro vital para romper com as narrativas coloniais que estão informadas em seu corpo como mulher e artista negra no Brasil. Atualmente ela se dedica a pesquisar e criar práticas de cuidado para restaurar o corpo energético através de coreografias e atos performativos que ela intitulou de “Cerimônias para a Quietude”.